Milei deve se tornar um presidente de consenso diante do contexto

A famosa frase “Você tem que fazer o que tem que fazer” pode ajudar a entender as mudanças inesperadas no comportamento de líderes, especialmente dos presidentes dos Estados Unidos. Pesquisas mostram que o entendimento do que é liderança presidencial envolve três fatores principais que interagem de maneira dinâmica.
O primeiro fator são os recursos institucionais, que incluem tanto regras formais, como as da Constituição, quanto aspectos da cultura política de cada país. Esses elementos definem as oportunidades e limitações enfrentadas pelos líderes. Nos Estados Unidos, por exemplo, o presidente precisa da aprovação do Senado para escolher membros importantes do gabinete. Já na Argentina, uma simples assinatura é suficiente. Em alguns lugares, os presidentes são vistos quase como figuras divinas. Um exemplo é o México, onde, todo 1º de setembro, os principais líderes do país costumavam beijar a mão do presidente durante o discurso do Estado da Nação.
O segundo fator envolve as características pessoais do líder. Isso inclui elementos como a personalidade, experiência, valores, inteligência emocional, flexibilidade e capacidade de persuasão. A história de vida e a formação de cada presidente têm impacto significativo na qualidade de suas decisões.
Por fim, o contexto histórico é crucial. Cada momento, tanto no cenário local quanto internacional, é único, permitindo que os líderes mostrem suas competências ou, em alguns casos, suas fraquezas. Há muitos exemplos de líderes para os quais a sorte foi um fator determinante em suas ações. Isso levanta questões sobre o que poderia ter acontecido com figuras como Fernando de la Rúa, que enfrentou condições econômicas desafiadoras, ou Javier Milei, que recebeu apoio inesperado dos Estados Unidos.
Milei se tornou presidente em um cenário marcado pela insatisfação do público com a classe política tradicional e a demanda por mudanças radicais. Essa vontade de transformação foi reafirmada nas últimas eleições, legitimando seu governo. Agora, ele se apresenta com mais força para negociar com governadores e outros atores políticos. Um senador já observou uma mudança na abordagem de Milei, que antes se mostrava mais nervoso nas negociações, mas agora está mais calmo e confiante.
Costuma-se que os presidentes mantenham, no início de seus mandatos, o estilo que usaram durante a campanha. No entanto, a necessidade de gestão leva muitas vezes a mudanças nesse comportamento. Milei, por exemplo, se vê forçado a negociar, buscar acordos e reconhecer nuances necessárias para avançar com sua agenda. Ele já afirmou ter aprendido a importância da pragmatismo após a derrota anterior em setembro.
O recente sucesso eleitoral e a reação positiva dos mercados financeiros mudaram a forma como seu governo se vê. Essa nova posição pode levar à formação de um novo modelo de governança, semelhante ao presidente de coalizão brasileiro, que ajudou a estabilizar a política em momentos de incerteza.
Agora, Milei deve lidar com um número ainda desconhecido de governadores e legisladores como parceiros estratégicos nesse novo arranjo. Essa mudança implica em negociar leis e compartilhar poder, abrindo mão de certas áreas de controle, em nome da convivência democrática.
O desafio principal agora é manter sua imagem de alguém que promete mudanças, sem desviar muito do personagem que conquistou o apoio popular. Agradar a nova base de suporte deve acontecer de forma gradual, evitando uma transformação repentina que poderia ser vista como uma traição aos princípios que o eleitorado abraçou. A capacidade de adaptação e flexibilidade será crucial para que Milei não termine isolado em sua governança.




