Ana Maria Gonçalves destaca uso do pretuguês na ABL

A escritora mineira Ana Maria Gonçalves, de 54 anos, tomou posse na Academia Brasileira de Letras nesta sexta-feira, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar uma das cadeiras da instituição em seus 128 anos de história. A cerimônia marca um importante avanço na diversidade dentro da academia.

Ana Maria foi eleita em julho deste ano, recebendo 30 votos, enquanto sua concorrente, a escritora indígena Eliane Potiguara, recebeu apenas um voto. A eleição teve a participação de 12 candidatos no total.

Durante seu discurso, Ana Maria fez questão de homenagear sua mãe e mencionar intelectuais negras que desempenharam papéis significativos na literatura. Ela citou expressões de Lélia Gonzalez, Leda Maria Martins e Conceição Evaristo, afirmando: “Venho falando pretuguês, escrevendo a partir de noções de oralitura e escrevivência”. Conceição Evaristo, que havia tentado uma vaga na ABL em 2018, estava presente e foi aplaudida de pé.

Ana Maria destacou seu desejo de promover mudanças na Academia, principalmente em relação à falta de diversidade, uma crítica que ela já havia levantado anteriormente. A cadeira que agora ocupa, a de número 33, estava vaga após a morte do gramático e linguista Evanildo Bechara, em maio deste ano.

Seu livro mais conhecido, “Um Defeito de Cor”, lançado em 2006, aborda a diáspora africana e lançou novos olhares sobre a história do Brasil. O tema do livro, que tem como protagonista a personagem Kehinde, inspirou uma exposição e até um desfile na Marquês de Sapucaí, quando foi tema da escola de samba Portela. Após a visibilidade que o livro recebeu no Carnaval, suas vendas aumentaram significativamente na internet.

Na cerimônia de posse, Ana Maria usou um vestido inspirado nas cores do fardão da ABL, confeccionado por costureiros da Portela, sob a supervisão do carnavalesco André Rodrigues. A própria escritora reconheceu a importância desse reconhecimento: “A Portela deu uma visibilidade ao livro que nenhuma outra festa ou evento literário deu. Tirou realmente o livro da bolha e atingiu gente que só a literatura não atingiria”.

Durante a posse, Ana Maria seguiu as tradições da ABL, participando de um jantar com os outros imortais, fazendo a fotografia oficial e sendo recebida no salão nobre por ilustres membros da Academia, como Rosiska Darcy de Oliveira, Fernanda Montenegro e Míriam Leitão. A cerimônia teve uma plateia majoritariamente composta por pessoas negras, destacando a importância desse momento histórico.

Além de “Um Defeito de Cor”, lançado após cinco anos de intenso trabalho, Ana Maria ainda fez outras publicações, embora tenha se afastado do romance por um período. Desde então, ela se dedicou ao teatro e a outros textos. “Um Defeito de Cor” é uma narrativa extensa, composta por 952 páginas, que retrata a vida de Kehinde e sua busca por seu filho perdido, Omotunde. A história é inspirada em Luiza Mahin, uma figura histórica importante na luta contra a escravidão no Brasil.

A historiadora Lilia Schwarcz, que também estava presente, comentou sobre a relevância da obra, ressaltando que a literatura pode ser uma forma de resgatar memórias de histórias muitas vezes negligenciadas. Ela também mencionou a realidade atual de mães que, como Kehinde, lidam com a perda de seus filhos em contextos de violência, refletindo sobre a perda e a esperança.

Ao longo de sua trajetória, “Um Defeito de Cor” vendeu mais de 200 mil cópias e foi reconhecido como um dos melhores livros da literatura brasileira do século XXI em uma votação com especialistas. Antes de Ana Maria, a cadeira 33 foi ocupada por outros escritores notáveis, que faleceram ao longo dos anos, marcando uma transição na presença de vozes diversas na Academia.

Ana Maria Gonçalves encerrou sua posse com uma observação leve, insinuando um progresso na Academia: “Como podemos ver, há uma progressão. Rumo à verdadeira imortalidade”.

Sair da versão mobile