Campanha da Azerbaijão em documentos vazados é revelada

Leaked documents revelam como a Administração Presidencial do Azerbaijão tem coordenado e financiado a divulgação internacional da narrativa de “Azerbaijão Ocidental”. Essa campanha, apresentada como um esforço humanitário, serve para justificar possíveis reivindicações irredentistas sobre o território armênio.
Nos últimos anos, o Azerbaijão lançou uma campanha centrada no conceito de “Azerbaijão Ocidental”, referindo-se não ao seu próprio território, mas a partes ou a totalidade da República da Armênia. O governo alega que a iniciativa visa apoiar o “retorno seguro e digno” dos azerbaijanos deslocados durante a queda da União Soviética, quando, entre os anos 80 e 90, ocorreu o primeiro conflito da Guerra de Nagorno-Karabakh, resultando em deslocamentos massivos de populações.
Com o passar do tempo, essa narrativa se transformou em uma estratégia de comunicação orientada pelo estado azerbaijano. Em vez de ser apenas uma questão humanitária, agora é frequentemente usada como um instrumento retórico na continuação do conflito com a Armênia.
Especialistas independentes identificaram claras conotações irredentistas nessa campanha. Por exemplo, Thomas de Waal, analista especializado na região, descreveu a iniciativa como essencialmente irredentista em uma publicação de 2023. Documentos vazados do governo azerbaijano mostram que a campanha é estreitamente coordenada e apoiada pela Administração Presidencial, embora seja divulgada pelo grupo “Comunidade do Azerbaijão Ocidental” (WAC).
O objetivo declarado do governo é manter viva a fervor nacionalista e usar isso como uma ferramenta para mobilizar a opinião pública, desviando a atenção de questões sociais e direitos dos cidadãos. Além disso, essa retórica serve como uma forma de intimidar a Armênia.
Os documentos revelam que a Administração Presidencial financiou diretamente a campanha, organizando conferências e contratando consultores de comunicação. Um evento de destaque ocorreu em Baku entre 5 e 6 de dezembro de 2023, intitulado “Garantindo o Retorno Seguro e Digno de Azerbaijanos Expulsos da Armênia”. O governo investiu mais de 109 mil manats azerbaijanos (cerca de 65 mil dólares) para cobrir despesas como hospedagem, produção audiovisual e criação de uma plataforma digital para disseminar conteúdo favorável ao retorno.
O evento contou com a participação de pelo menos 34 estrangeiros de diversas origens, incluindo acadêmicos de universidades italianas e gregas, além de analistas de instituições russas. Apesar do financiamento e do apoio organizacional, a cobertura do evento por parte da mídia internacional foi limitada. Porém, na mídia estatal, muitos participantes apoiaram a mensagem da conferência.
Após um evento considerado um sucesso, os organizadores realizaram um encontro semelhante no ano seguinte, envolvendo novamente muitos dos mesmos participantes e novos convidados de universidades e meios de comunicação ocidentais.
O “WAC” foi reativado em 2022, após anos de inatividade, e passou a ser uma ferramenta para os objetivos do governo azerbaijano. Durante conflitos militares breves, o discurso em torno dessa narrativa se intensificou. A retórica irredentista do Azerbaijão, que considera territórios armênios como historicamente azerbaijanos, tem sido uma constante nas declarações oficiais.
Em momentos-chave, como durante um bloqueio na região de Nagorno-Karabakh, o presidente azerbaijano Ilham Aliyev chamou a Armênia de “terra histórica azerbaijana”. Ele também caracterizou a Armênia como um “estado fascista” devido à sua recusa em aceitar o retorno de refugiados azerbaijanos.
Apesar de cúpulas de paz e tentativas de encontrar um consenso, a retórica azerbaijana persiste. Afinal, a narrativa de “Azerbaijão Ocidental” não se apagou completamente, mantendo-se como um tema nos debates internacionais sobre os direitos dos armênios que deixaram a região.
As discussões em eventos realizados na Europa e a publicação recente de um livro sobre o tema mostram que essa narrativa continua a ser promovida ativamente. Além disso, a liderança do WAC afirma que a Armênia deve reconhecer as reivindicações do Azerbaijão para garantir a estabilidade na região.
Não houve resposta por parte da administração do WAC ou da Administração Presidencial do Azerbaijão às solicitações de comentários sobre as revelações.




