Desafios e soluções para o descarte e reciclagem de lixo eletrônico no Brasil

O volume de lixo eletrônico gerado no Brasil é alarmante. Aparelhos como celulares antigos, notebooks que não funcionam mais, e televisões de tubo acumulam-se nas residências ou são descartados de forma inadequada. Em 2022, o Brasil acumulou cerca de 2,4 milhões de quilos desses resíduos, consolidando-se como o maior produtor de lixo eletrônico da América Latina. Este número coloca o país atrás apenas dos Estados Unidos no continente americano. Tais dados são apresentados pelo “The Global E-waste Monitor”, que realiza um mapeamento global da produção e manejo de resíduos eletrônicos. Globalmente, mais de 60 bilhões de quilos de lixo eletrônico foram produzidos, mas apenas um quarto desse total foi coletado e reciclado de maneira adequada.

A expectativa para os próximos anos é ainda mais preocupante, com uma projeção de que até 2030 o volume global de resíduos eletrônicos ultrapasse 80 bilhões de quilos. No Brasil, o alicerce legal para gerir essa problemática é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010. A lei define que a logística reversa deve ser implementada para viabilizar a coleta e o retorno desses resíduos para a indústria, seja para reciclagem ou destinação ambientalmente correta. Produtos eletroeletrônicos estão entre os itens para os quais essa devolução é obrigatória, mas na prática a aplicação das normas ainda enfrenta grandes desafios.

Segundo Carlos Eduardo Canejo, professor da Universidade Veiga de Almeida, o conceito de “resíduos eletroeletrônicos” inclui uma vasta gama de produtos que nem sempre são associados a este tipo de descarte. Vai muito além de computadores e notebooks, abrangendo itens domésticos como batedeiras, baterias, micro-ondas e até gravadores de vídeo, todos potenciais poluentes se descartados erroneamente. O professor destaca que, apesar das diretrizes, a execução e fiscalização do processo carecem de aprimoramento significativo.

A logística reversa, estruturada por empresas com o auxílio de entidades gestoras, segue um processo em quatro etapas. Começa com o consumidor, que entrega equipamentos em pontos de coleta voluntária. Esses locais são frequentemente estabelecidos em lojas de grandes redes, como o Magalu, e em unidades comerciais de fabricantes como Motorola e Samsung. Posteriormente, os itens coletados são transportados para empresas especializadas para serem reciclados. A Samsung, por exemplo, opera programas como o Recicla e o Eco Troca, para facilitar a recolha e incentivar a aquisição de novos dispositivos em troca dos antigos.

A logística reversa ainda é complementada pelas iniciativas do poder público, que ocasionalmente realiza mutirões de coleta de lixo eletrônico. Contudo, fora do circuito formal, existe um vasto e informal mercado de sucata eletrônica. Este mercado negligencia a rastreabilidade, fundamental para garantir a destinação correta dos resíduos, levando a potenciais danos ambientais e desperdiçando materiais que poderiam ser reciclados.

A informalidade compromete a sustentabilidade, pois componentes de valor são retirados e o que resta é descartado inadequadamente, aumentando a poluição. Carlos Eduardo Canejo adverte que, sem opções acessíveis de descarte, as pessoas frequentemente optam por métodos ilegais e prejudiciais ao meio ambiente, descartando resíduos em terrenos baldios ou nas margens de rios.

Mesmo dentro das cadeias formais, nem tudo que se propõe a ser reciclado é de fato reaproveitado. Resíduos eletroeletrônicos passam por triagem e os materiais que não apresentam viabilidade para reciclagem são enviados a aterros sanitários. Exemplo disso são os tubos de TVs antigas, que apesar de alguns componentes poderem ser reutilizados, grande parte do material não possui incentivo econômico para reciclagem e acaba em aterros.

A adoção integral de um sistema sustentável para resíduos eletrônicos no Brasil enfrenta desafios em educação, fiscalização e cultura de consumo. Os especialistas sugerem mais iniciativas educacionais para fomentar a consciência ambiental desde cedo. Além disso, destacam a necessidade de políticas que obriguem as empresas a integrar materiais reciclados em suas produções, promovendo um ciclo de consumo mais consciente.

Sair da versão mobile