Como Dados Públicos e o OSINT Podem Expor Nossa Privacidade na Internet

Em um cenário onde a presença digital se intensifica, muitos usuários encontram uma sensação de segurança ao compartilhar suas atividades apenas com um grupo restrito em redes sociais. Por exemplo, no Instagram, a plataforma da Meta, acredita-se que a escolha de quem pode seguir seu perfil seja uma barreira suficiente para proteger informações pessoais. Contudo, a realidade pode ser bem diferente. Com a simples publicação de uma foto em um local específico, como durante um happy hour, é possível expor detalhes cruciais sobre sua vida. Sem a necessidade de métodos de espionagem sofisticados ou recursos exclusivos de autoridades, indivíduos mal-intencionados podem acessar informações agregadas ao utilizar técnicas de OSINT (Open Source Intelligence), ou Inteligência de Código Aberto.

O conceito de OSINT baseia-se na coleta e análise de dados disponíveis publicamente na internet, abrangendo redes sociais, fóruns e até sites governamentais. Embora inicialmente utilizado para investigações, segurança cibernética e práticas jornalísticas, as mesmas táticas podem ser desvirtuadas para fins nefastos. Afinal, os dados que deixamos na web podem ser reorganizados para traçar perfis detalhados sem que o usuário tenha noção da gravidade dessa exposição. Apesar de o OSINT não ser ilegal, sua utilização pode abrir portas para práticas prejudiciais como o doxing, a exposição deliberada de informações pessoais, que pode ser usada para chantagem e humilhação pública.

Na atual conjuntura digital, a prática de compartilhar momentos e experiências é quase instintiva. Postar fotos de viagens ou atualizações em tempo real tornou-se comum, contudo, essa ação pode se tornar um risco significativo quando não mediada com cautela. Dados aparentemente inofensivos, como crachás de trabalho ou códigos de barra em passagens aéreas, podem ser explorados por cibercriminosos. Esses elementos podem ser usados de maneira a comprometer tanto a segurança individual quanto corporativa, transformando as ações de compartilhar comum em potenciais ameaças à privacidade.

Um exemplo claro disso é encontrado nas viagens aéreas. O simples ato de compartilhar uma foto da sua passagem pode expor dados importantes contidos no código de barras ou QR Code, como o PNR (Passenger Name Record). Dados como esses são facilmente acessíveis a partir dos sites das companhias aéreas, revelando informações pessoais como passaporte, e-mail e telefone para qualquer um com tempo e motivação para explorar essas brechas. No mesmo sentido, a exposição de crachás corporativos, muitas vezes vistas como insuspeitas, também contém informações susceptíveis à clonagem e falsificação, abrindo espaço para ataques mais direcionados, como o spear phishing.

Os desafios vão além do aspecto individual, pois no contexto corporativo, os dados coletados via OSINT facilitam ainda mais a engenharia social. Um criminoso, por exemplo, pode usar informações coletadas sobre preferências pessoais e histórico profissional para induzir uma vítima a abrir um e-mail malicioso, comprometendo dados corporativos relevantes. Empresas também usam OSINT para monitorar o comportamento online de seus funcionários, resultando até mesmo em demissões por violação de políticas de conduta online.

Tal dicotomia, onde buscamos privacidade mas ao mesmo tempo compartilhamos nossas vidas online, resgata o paradoxo da privacidade na era digital. Ainda que entreguemos voluntariamente nossos dados às plataformas digitais, a maneira como eles podem ser usados por terceiros sem nosso consentimento levanta sérias preocupações. A cultura do “overposting” muitas vezes impulsionada por busca de validação social em forma de curtidas e comentários contribui para esse ciclo de exposição.

A boa notícia é que existem estratégias que podem mitigar os riscos de exposição indevida de informações. Medidas práticas como fechar perfis para desconhecidos, adiar publicações até que você deixe o local, cobrir informações sensíveis em fotos e realizar periodicamente uma “limpeza digital” podem incrementar a segurança à sua presença online. Embora a privacidade absoluta possa ser um ideal inalcançável, fazer o possível para tornar as ações de criminosos mais difíceis é um passo responsável.

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