A História do Phishing: Como a AOL e Seus Usuários nos Anos 90 Precederam os Golpes Digitais Atuais

Para aqueles que viveram a década de 1990, o som familiar da conexão discada à internet era quase tão cotidiano quanto o nascer do sol. Durante esse tempo, a navegação na web era envolta em um mistério atrativo, revelando um universo inteiramente novo, mas também abrigava um lado mais obscuro que precedeu diversos ciberataques que conhecemos hoje em dia, como o phishing. Embora muitos pensem que as fraudes digitais surgiram no século XXI, o cibercrime já existia na era da conexão discada. Notavelmente, o fenômeno do phishing já causava preocupações financeiras aos internautas desde os anos 1990, especialmente entre os usuários da America Online, mais conhecida como AOL.
A AOL surgiu como uma gigante da internet na década de 1990, tornando-se uma das principais provedoras de serviços online no mundo. O fascínio pelo serviço era tamanho que muitas pessoas acreditavam que a empresa era, de fato, a própria internet. Essa fama quase celestial criou uma sensação de paraíso digital, que todos estavam ansiosos para explorar. No entanto, ao mesmo tempo em que trouxe o acesso à web para milhões de lares, a AOL também se encontrou inadvertidamente envolvida num marco infame na história do phishing. Um segmento da comunidade digital, conhecido como “warez”, emergiu entre adolescentes que desejavam ampliar seu acesso à internet sem arcar com custos adicionais.
Naquela época, o modelo de negócio da AOL cobrava pela quantidade de horas navegadas na internet, tornando a experiência online uma atividade cara e, em muitos casos, inacessível. Em resposta, jovens interessados em explorar mais do universo digital sem pagar começaram a recorrer a métodos ilegais. Eles começaram a se envolver com os “warez”, comunidades virtuais dedicadas à distribuição ilegal de software protegido por direitos autorais. Estes jovens hackers usavam geradores de cartões de crédito falsos para contornar as restrições da AOL. No entanto, quando a empresa reforçou suas políticas de segurança, esses hackers tiveram que inventar novas estratégias para continuar a usufruir da internet sem custos.
Foi nesse contexto que o programa AOHell nasceu em 1994, criado por um hacker conhecido pelo pseudônimo Da Chronic. Este software inovador transformou o cenário ao automatizar o roubo de contas, permitindo uma operação mais expansiva para os cibercriminosos. A AOHell funcionava como um “canivete suíço” digital, provocando grandes dores de cabeça à AOL ao automatizar o envio em massa de mensagens para os usuários, estabelecendo um dos primeiros registros de phishing na internet ao captar senhas dos internautas para acessar dados financeiros.
Os hackers perceberam que a verdadeira oportunidade estava em explorar a ingenuidade dos usuários frente ao novo mundo digital que se abria. Facilitar a quebra de segurança não era tão prático quanto simplesmente enganar as pessoas. Este entendimento marcou um ponto de virada crucial, estabelecendo as bases do que hoje conhecemos como phishing. O termo, que combina as palavras em inglês “fishing” (pescar) e “phreaking” (exploração de sistemas telefônicos nos anos 70 e 80), foi cunhado em um fórum da Usenet para descrever as atividades que ocorriam nas contas da AOL na época.
Cada fraude digital possui seu método de operação característico e, mesmo naquela época, o modus operandi dos golpistas envolvia uma engenhosa forma de engenharia social. Os criminosos se escondiam atrás da identidade da AOL, enviando mensagens instantâneas ou e-mails que soavam urgentes, como “verifique sua conta” ou “problema de faturamento.” Esses alertas urgentes induziam os usuários a compartilhar suas informações de login, confiando nas mensagens que recebiam, acreditando que estavam se comunicando com representantes autênticos da AOL.
Em resposta ao aumento dos casos, a AOL implementou medidas para alertar os usuários de que nunca pediriam suas senhas para verificação, um procedimento que ainda é observado em muitos serviços até hoje. Adicionalmente, a empresa tomou providências para cancelar contas suspeitas e aprimorar os filtros de segurança, embora estas ações não tenham extinguido completamente a raiz do problema. A habilidade de enganar e induzir confiança nos usuários ofereceu aos hackers novas frentes de fraude, incluindo ataques a sistemas financeiros e moedas digitais da época, como o e-gold.
Embora o phishing tenha evoluído consideravelmente ao longo das décadas, com técnicas cada vez mais sofisticadas impulsionadas pela tecnologia e pela inteligência artificial, a essência do golpe continua a mesma. Os criminosos ainda exploram a psicologia humana, utilizando o medo e a urgência para enganar as vítimas, mesmo três décadas após os primeiros casos. Essa abordagem garante que o phishing permaneça um método de crime cibernético em constante reinvenção.




