Inadimplência e juros altos ameaçam otimismo do varejo neste fim de ano

O setor de varejo brasileiro se prepara para um dos períodos mais movimentados do ano, que inclui a Black Friday e as vendas de Natal. As lojas buscam atrair consumidores com promoções e ofertas especiais, mas enfrentam desafios significativos, como a inflação elevada, a crescente inadimplência e a alta nas taxas de juros.
Em setembro, o Brasil registrou 79,1 milhões de pessoas com dívidas, segundo dados da Serasa. Uma parte significativa dessas pendências está relacionada a bancos e cartões de crédito, que representam 27% das dívidas. Outras obrigações incluem contas básicas, como água, luz e gás (21,3%), financeiras (19,9%) e serviços (11,5%). Em média, cada consumidor inadimplente deve R$ 6.267,69, com dívidas que variam de R$ 1.578,23.
A inflação, embora tenha mostrado sinais de desaceleração, continua pressionando o consumidor. Atualmente, a taxa Selic, que é a taxa básica de juros, se mantém em 15%. Especialistas projetam que essa taxa deve fechar o ano em 12%, ainda considerada alta. Esse cenário afeta diretamente o crédito e, consequentemente, o poder de compra das famílias.
Para Aldo Nuñez Macri, presidente do Sindilojas-SP, a inadimplência é o principal obstáculo para um bom desempenho nas vendas. Dados da Fecomercio-SP mostram que 72,7% das famílias em São Paulo estão endividadas, sendo que 22,7% delas possuem dívidas em atraso, a maior proporção desde o fim de 2023. Esse cenário leva os comerciantes a adotarem uma postura cautelosa e realista em relação às vendas de fim de ano.
Apesar de um crescimento de 6,7% nas movimentações de vendas em dezembro de 2024 em comparação ao mesmo mês do ano anterior, as expectativas para 2025 não são tão otimistas. Embora haja previsão de um incremento nas vendas, espera-se que seja de forma moderada. O pagamento do 13° salário, que deve injetar R$ 30,8 bilhões na economia da capital paulista, poderá ser utilizado em boa parte para quitar dívidas.
O desempenho positivo do varejo nos primeiros semestre e a manutenção do emprego em São Paulo são fatores que geram um leve otimismo, mas a combinação de juros altos, crédito restrito e aumento do endividamento continua a limitar o poder de aquisitivo das famílias.
Além da inadimplência, o varejo enfrenta outro desafio: a baixa disponibilidade de estoque e a dificuldade em encontrar trabalhadores temporários. Em outubro, apenas 53% das empresas relataram ter níveis de estoque adequados. Essa situação reflete os impactos dos altos juros, que aumentam o custo de crédito.
O mercado de trabalho aquecido também compete pela mão de obra, o que dificulta a contratação para vagas temporárias. Profissionais qualificados tendem a buscar oportunidades mais estáveis, fazendo com que a seleção e o treinamento para as funções temporárias sejam ainda mais importantes. A expectativa é que cerca de 7 mil trabalhadores temporários sejam contratados em São Paulo, um aumento em relação ao ano anterior, quando o número foi de 6,2 mil.
Para enfrentar a inadimplência, Macri ressalta a importância de um planejamento estratégico e cauteloso nas promoções. Ele sugere que os lojistas ofereçam descontos à vista para aproveitar o 13° salário, criem um histórico de clientes bom pagadores para condições exclusivas e incentivem as vendas parceladas nos cartões de crédito. Macri alerta que é crucial evitar excessos em estoques e promoções para preservar a saúde financeira das lojas. Cautela e planejamento são essenciais para superar os desafios do calendário comercial e garantir resultados positivos.




